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O garoto brasileiro de 8 anos que está enfrentando os produtores do game GTA nos tribunais e conseguiu proibir a comercialização do jogo em todo o mundo!

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27122010

Mensagem 

O garoto brasileiro de 8 anos que está enfrentando os produtores do game GTA nos tribunais e conseguiu proibir a comercialização do jogo em todo o mundo!





A história de MC Miltinho, o funkeiro carioca de oito anos que está
enfrentando os produtores do game GTA nos tribunais e conseguiu proibir a
comercialização do jogo em todo o mundo

“Ninguém
pode me derrubar, nem com tiro de bazuca.” Quem vê Miltinho jogando o
game Grand Theft Auto IV, mais conhecido como GTA, olhos vidrados na
tela, não imagina a batalha que sua família trava nos tribunais contra
os produtores do jogo. Aos oito anos de idade, Milton Luiz Lourenço é a
pedra no sapato da gigante americana Rockstar Games, empresa que
comercializa o game e faturou quase US$ 1 bilhão ano passado. Isso
porque os advogados do garoto conseguiram uma decisão judicial que
proíbe a venda de sua versão mais recente, A Balada do Tony Gay, não só
no Brasil, mas no mundo todo, por usar uma das músicas que ele
interpreta sem pagar direitos autorais.


O GTA é
uma das séries de videogame mais vendidas — e polêmicas — de todos os
tempos. O quarto episódio, lançado para Playstation 3, Xbox 360 e PC, já
vendeu mais de 17 milhões de cópias. Nele, o jogador vive um fora da
lei, que é incentivado a roubar e matar para atingir seus objetivos. Em
uma das missões do jogo A Balada do Tony Gay, que expande a história
original do GTA IV, o personagem entra em uma casa noturna e escuta uma
música brasileira tocando ao fundo. É um trecho do funk Bota o dedinho
pro alto, cantada por Miltinho e composta por seu pai, Hamilton
Lourenço. Mas nenhum dos dois recebeu nenhum centavo pelo uso do
batidão.

Quando consegue algum tempo livre entre
as aulas, os deveres de casa e as partidas de videogame e futebol com
os primos, Milton encarna o MC Miltinho. Em junho do ano passado, ele e o
pai foram até um estúdio no Rio de Janeiro e gravaram o funk que
provocou toda a confusão. Foi questão de meses até o refrão “Vem menina
vem sem medo, que eu vou te ensinar” começar a fazer sucesso nos bailes
cariocas e em rádios do Brasil inteiro. Os versos chamaram a atenção do
DJ alemão Daniel Haaksman, um dos responsáveis por levar o funk carioca
para a Europa. Ele remixou a faixa e a lançou pela gravadora Man Records
com o nome Kid Konga. É essa versão presente no game.


Foi só no começo deste ano que a família de Miltinho ficou
sabendo que sua música tocava nas pistas da Europa e em um dos games
mais vendidos do mundo. No começo, ficou bastante orgulhoso pela fama
repentina. “O problema foi quando fiquei sabendo que deveria ter ganhado
dinheiro com isso, mas não ganhei nada”, diz. E, agora, ele tem a
chance de reaver um dinheiro que pode mudar sua vida.


Vida de funkeiro Milton mora com a mãe, Luana Monteiro, na
periferia de Duque de Caxias, município ao sul da capital fluminense, em
uma casa simples, de dois quartos, sala e cozinha. Ela acabou de passar
por reformas, mas o quintal ainda precisa de uma mão, que não veio por
falta de dinheiro. Miltinho tem hora certa para fazer a lição de casa,
ver TV e jogar videogame. Bagunça mesmo, só na casa da avó. O menino
comportado sai de cena, no entanto, quando o assunto é a música. A fama
de MC já percorreu toda a vizinhança. Nas ruas, as pessoas pedem para
que cante um trechinho de seus sucessos.

A
resposta vem de imediato: “Tá bom, mas você vai pagar quanto?”. Apesar
das brincadeiras, ele sempre faz apresentações para os amiguinhos e faz
questão de agradar os fãs. “Nas meninas, eu dou um beijo e um abraço”,
diz. A indiferença que o garoto nutre pelo sucesso talvez venha do fato
de não gostar de cantar por obrigação e já demonstrar cansaço com o
“estrelato”. Ser funkeiro não é seu objetivo de vida. “Quero ser
engenheiro civil e ganhar bastante dinheiro trabalhando em coisa boa.
Gosto de cantar só por farra.”

Até o começo do
ano, Miltinho estudava em uma escola particular localizada em um bairro
próximo de sua casa, mas teve que mudar para uma estadual por falta de
dinheiro para as mensalidades. Sente falta das aulas de inglês, língua
que já começava a dominar. Na terceira série da escola, a única
reclamação das professoras vem do fato do menino não gostar de anotar no
caderno as matérias passadas em sala de aula. “Mas ele guarda tudo na
cabeça, como faz com os funks do pai”, diz a mãe, Luana.

As
duas vidas de Miltinho: em um estúdio no Rio de Janeiro, Milton grava
um novo funk, sob a supervisão do pai. Quando não está envolvido com o
mundo da música, o garoto leva uma vida tranquila, com a mãe, numa casa
simples na periferia de Duque de Caxias
Crédito: Stefano Martini

Ela
se refere às músicas compostas por Hamilton, um dos precursores do
batidão no Rio de Janeiro. Conhecido no meio musical como MC Batata, é
responsável pelo famoso A Feira de Acari, um dos primeiros funks a
estourar nas paradas de sucesso, no começo nos anos 90. Chegou a virar
trilha sonora da novela Barriga de Aluguel, da TV Globo. Hoje, aos 50
anos de idade, Batata agencia outros músicos e organiza bailes funk. O
funkeiro das antigas trata Miltinho como o herdeiro de sua tradição
musical. Pai e filho moram em casas diferentes, e por isso acabam tendo
uma relação mais distante. Os momentos de maior sintonia ocorrem nos
dias em que passam juntos e, meio de brincadeiras, meio a sério, cantam e
ensaiam novos hinos do funk. O garoto gravou sua primeira música aos
seis anos de idade. Hoje, já tem oito músicas em seu repertório. Além do
funk do dedinho, lançou O Pica-Pau e Ih, Tá Maneiro.


Mas a família nunca ganhou dinheiro com os sucessos do filho.
“Nunca foi essa minha intenção. Além disso, por conta da idade, ele não
pode cantar em bailes funk”, diz o pai. Acompanhamos a gravação da nova
música do MC Miltinho: Força, Fé e União, no Rio de Janeiro. “Essa
música vai estourar”, diz Batata. “Vou colocar pra estrear no programa
de rádio do DJ Marlboro.” Com o pai do lado, ditando trechos da música e
explicando algumas variações do tom, Miltinho assume o papel de MC:
“Nossa força vem, vem do coração, sou apenas mais um pobre querendo
ganhar meu pão”.

A força que vem da grana No
processo judicial movido contra a Rockstar, a família pede uma
indenização no valor de R$ 500 mil, por conta dos direitos autorais,
danos morais e materiais. O que Milton faria se ganhasse toda essa
bolada? “Ia gastar dinheiro!”, diz Miltinho, com cifrões nos olhos. A
mãe é mais precavida: “Vamos mudar de bairro, ir pra um que tenha melhor
infraestrutura. Vou poder pagar uma escola melhor pro Miltinho, além de
bancar cursos que ele sempre quis fazer, como de violão e futebol. Mas
ainda não sabemos quando e nem quanto dinheiro virá”.


O caso ainda está longe do final. Antes de entrar na justiça, os
advogados de Hamilton contataram a Rockstar. “A gente tentou negociar
com eles durante três meses. Mas eles falaram que tinham uma autorização
assinada para usar a música”, diz Thiago Jabur, um dos advogados da
família. O documento apresentado vinha em nome da Man Records, a
gravadora que lançou a música na Europa. Ele cedia ao produtor Daniel
Haaksman todos os direitos sobre a música e trazia a assinatura do pai
de Miltinho. “Mas eu nunca assinei nada”, diz Hamilton.

“As assinaturas eram falsificadas, não correspondiam com nenhum
documento pessoal do Hamilton”, diz o advogado. De fato, na assinatura, o
nome está escrito sem o H: Amilton. No dia 14 de outubro a 3ª Vara
Civil de Barueri expediu uma liminar que obriga a Rockstar Games e a
Synergex, que distribui o game no Brasil, a retirar o jogo das lojas.
Procurada, a empresa americana afirma que não irá se pronunciar pois
ainda não foi notificada da decisão.

Como Brasil
e Estados Unidos são signatários de tratados internacionais sobre
direitos autorais, a ordem pode ter valor em solo americano. “Se
chegarmos a um acordo, o jogo poderá voltar a ser distribuído
normalmente”, diz Thiago. É tudo o que Miltinho quer: poder jogar seu
GTA em paz, sabendo que, cada vez que ouvir sua voz, uma moedinha cai na
sua conta.

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